quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Qualquer dia ainda vou dentro...

Estava eu, a semana passada, muito descansadinha a jogar Farmville no escritório, quando me avisam que tinha um julgamento à tarde, num Tribunal de outra cidade. Lá tive eu que plantar morangos (como demoram 4 horas até estarem prontas para se colher, eu achei que dava tempo para ir à minha vidinhe e não ficar com as colheitas estragadas) e fui almoçar mais cedo, já que o julgamento estava marcado para as 14h e ainda tinha que fazer a viagem até ao tribunal.

Depois de esperar uma hora e meia pela chamada, lá vamos nós para a sala de audiências. Entra a Juiz. Esperava eu uma senhora austera e muito arranjadinha quando me deparo com uma mulherzita que se parecia demais com a miúda do Exorcista... Além de estar com um penteado e olhos parecidos com o da miúda da foto aqui ao lado, tinha um ar aluado e não olhava para nós enquanto falava... Para dizer a verdade, mal a conseguia ouvir, estava demasiado concentrada em não me rir, fugir ou gritar.


Começa a audiência de julgamento. Ouvem-se as testemunhas. Passado um bocado, a Juiz vira-se para mim e pede-me o código civil que eu tinha levado. Eu tive medo que ela começasse a cuspir aranhas ou algo do género (pah, nunca vi O Exorcista, eu sabia lá o que podia sair dali!), então, emprestei-lho.

No fim de ouvidas as testemunhas, e por motivos que não vou aqui explicar porque este não é um blogue jurídico, a Juiz tinha que proferir a decisão de imediato. Estavamos todos em silêncio, à espera que ela falasse, quando ela levanta a cabeça muito depressa (até então tinha estado debruçada sobre o meu Código) e pareceu muito surpreendida por ninguém estar a falar. Foi então que se apercebeu que se calhar era a vez dela (é como a jogar UNO: quando ninguém pousa uma carta num espaço de 58 segundos, é porque é a nossa vez de jogar e estamos distraídos). É nesse momento que ela olha para a direita, olha para a esquerda, olha para o código e de repente grita, muito espantada: "Ah, mas eu não sei como é que se resolve isto!".
Pois. É sempre o que nós queremos ouvir da pessoa encarregue de fazer justiça e que estudou direito durante anos. A decisão ideal é sempre "Eu não sei resolver a situação".

Dei por mim a tentar não rir, não ficar de boca aberta perante a idiotice que tinha acabado de acontecer e a pensar "e agora, deitamos moeda ao ar?", quando ela diz: "Olha, pronto, vou decidir dar razão ao Autor." Falta dizer que eu representava o Réu. E sem eu conseguir evitar, sem uma ponta de bom senso activa em mim, sem pensar nas consequências, levanto-me e digo-lhe: "Ai é? Então da próxima não lhe empresto o meu Código!"

Profissionalismo acima de tudo.


(ainda por cima aquilo demorou tanto que quando voltei ao escritório já tinha as colheitas podres...)